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Alberto Carlos Almeida

Cientista político, sociólogo e pesquisador

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Camila Pitanga, a negra; e a cabeça do brasileiro

por | set 25, 2025 | Opinião Pública, Sociedade | 2 Comentários

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Esse artigo é o primeiro de uma série em que abordarei o livro A cabeça do brasileiro, 20 anos depois; escrito em coautoria com diversos autores e especialistas em suas áreas de pesquisa. Ah, o livro está disponível em qualquer livraria na internet ou física.

Um dos temas da Pesquisa Social Brasileira (PESB) em suas duas rodadas – 2002 e 2022-23 – foi a da cor ou raça do brasileiro. Os resultados permitem entender os motivos que levam a atriz Camila Pitanga a se denominar de negra, tomando-a, evidentemente, como um caso dentre muitos que fazem o mesmo, ou seja, como a manifestação de um fenômeno sociológico e coletivo (e não psicológico e individual). A princípio, há três grandes conjuntos de motivações que levam as pessoas a se considerarem negras:

– a sua cor de pele e, eventualmente, outros traços físicos como o formato do nariz, lábios e o cabelo;
– os documentos oficiais;
– e os antepassados.

Segundo a PESB de 2022-23, 47% dos brasileiros se dizem da cor que são por conta de sua pele, 23% por causa dos documentos oficiais e apenas 10% por conta de onde vieram seus antepassados. Os demais 16% mencionam a cor de pele junto com as características físicas acima citadas e outros 4% se distribuem de maneira fragmentada por outros motivos. Vale notar que a escolha de Camila Pitanga – negra – é a mesma de apenas 6% da população brasileira, 92% se disseram de maneira espontânea pardos, brancos, pretos, amarelos, indígenas ou morenos, e outros 2% escolheram outras denominações.

Assim, a escolha de Camila Pitanga é a mesma de um pequena minoria dos brasileiros adultos, ao passo que a grande maioria (44%), que tem a cor de pele parecida com a dela, se considera espontaneamente pardo. Aliás, ela afirmou que nunca se considerou parda, mas sempre negra. A sua escolha, portanto, avaliada à luz dos dados da PESB, revela grande dissonância face a como os brasileiros veem a si e a ela.

Na PESB foram apresentadas oito fotos de pessoas com diferentes cor de pele variando de muito branco para muito preto e os entrevistados disseram qual a cor de cada uma delas. As três pessoas com a cor de pele mais parecida com a de Camila Pitanga (do que com a de Jovelina Pérola Negra) foram consideradas pela grande maioria dos brasileiros como sendo pardas e não como pretas. Assim, quando Camila Pitanga é ouvida por essa maioria se dizendo negra ela causa, no mínimo, estranheza. Ela corre o risco de ser vista como alguém em dissonância face à sociedade em que vive. A minha suspeita é que isso possa estar ocorrendo em função de uma tentativa de se constriuir uma raça (racecraft, o título do livro das irmãs Fields).

Convém sublinhar que raça não existe. Todos os seres humanos pertencem a uma mesma espécie. Raça só passa a existir a partir do surgimento do racismo, uma vez que os racistas precisam desse conceito (com tinturas de algo científico) para exercer seu preconceito. Racecraft é tão problemático para quem cai nessa armadilha quanto foi witchcraft para as pessoas suspeitas de terem poderes mágicos. Vale sublinhar que já houve uma época em que os seres humanos acreditaram em magias e em feiticeiras e por isso as perseguiram.

Quando uma pessoa parda para a maioria dos brasileiros se considera negra, é possível que ela esteja tentando construir uma identidade racial que remeta a seus antepassados africanos, algo também sem importância para a maioria dos brasileiros, e, com isso, construir uma solidariedade racial entre pessoas que sejam parecidas com ela a fim de combater o racismo. É curiosa a crença de que o combate ao racismo pode ser mais efetivo se a noção anti-científica de raça for afirmada e reificada. Justamente o oposto do que ocorreu em Ruanda após o genocídio de 1994, a total proibição legal, administrativa e política de que as pessoas se identificassem com grupos étnicos: em vez de racecraft, racedestruction.

Os dados da PESB mostram que a autocalssificação como pardo se consolidou em 20 anos, assim como aumentou o apoio às políticas de cotas para pardos e pretos. Mais do que isso, inúmeras leis de combate à discriminação em função da cor de pele se consolidaram e se tornaram mais duras nesse período. Ou seja, mesmo com a população brasileira não se dividindo entre negros (uma suposta raça cujos antepassados vieram da África) e brancos (outra suposta raça vinda da Europa), houve um avanço significativo no combate ao racismo. Assim, é possível que o povo brasileiro tenha algo a ensinar àqueles que não se importam em ser dissonantes face ao contexto em que vivem.


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2 Comentários

  1. ROGERIO LUIZ PEREIRA

    Ótimo texto mestre Alberto ☺️

    Responder
    • Alberto Carlos de Almeida

      Obrigado!

      Responder

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