Esse artigo é o segundo de uma série em que abordo o livro A cabeça do brasileiro, 20 anos depois; escrito em coautoria com diversos autores e especialistas em suas áreas de pesquisa. Ah, o livro está disponível em qualquer livraria na internet ou física.
Nilson Teixeira e eu utilizamos os dados da Pesquisa Social Brasileira separados por 20 anos para identificar que os brasileiros ficaram mais liberais na economia. Foram feitos três conjuntos de perguntas para avaliar a adesão ao liberalismo econômico no que diz respeito a:
– o apoio à abertura de mercado
– o apoio ao fornecimento de serviços pelas empresas privadas
– o apoio à regulação estatal da economia
Para cada uma dessas avaliações dividimos os brasileiros em três faixas: pouco, medianamente e muito liberal. No caso da abertura de mercado os muito liberais aumentaram em 17 pontos percentuais!!! (os dados podem ser encontrados no dashboard das pesqusias em https://acabecadobrasileiro.com.br/). Eles eram apenas 16% em 2002 e se tornaram um terço da população adulta brasileira em 2022-23. Os pouco liberais (mais estatistas) no apoio às empresas como fornecedoras de serviços diminuíram em cinco pontos percentuais e os pouco liberais na regulação sofreram uma redução de seis pontos percentuais. Ou seja, nas três dimensões do liberalismo econômico o brasileiro se tornou mais favorável à economia de mercado.
É possível afirmar que o aumento do liberalismo quanto ao fornecimento de serviços e à regulação foi bem menor do que o verificado em relação à abertura comercial. Além disso, atualmente somos mais liberais nesta área, menos no fornecimento de serviços e menos ainda na regulação estatal da economia.
Duas perguntas foram bastante reveladoras. Houve aumento de apoio às empresas privadas na telefonia celular, que melhorou nos últimos 20 anos, e redução desse apoio no transporte público (majoritariamente ônibus) que piorou nesse mesmo período. Isso indica que há um grande pragmatismo da população: se as emrpesas particulares fornecem um bom serviço ela passa a querer mais as emrpesas, porém, se o serviço piora com elas a população recorre ao governo. De alguma maneira, o crescente apoio à abertura comercial também revela isso. Como houve um aumento de acesso às compras internacionais por meio de sites na internet, os brasileiros se tornaram mais favoráveis a menos intervenção estatal protecionista.
A população brasileira tem uma renda média relativamente baixa e uma grande fatia dos empregos são precários ou instáveis. Diante disso, é razoável supor que se trata de uma população que, em sua maioria, se sentre fraca diante ds empresas. Assim, o apoio ao capitalismo e à economia de mercado tem uma porta aberta no Brasil, tanto é que aumentou em 20 anos, mas a continuidade dessa trajetória é dependente de serviços privados de qualidade e abrangência crescentes. Se o mercado melhorar a vida da população como aconteceu na área de telefonia celular e de acesso aos importados, tudo indica que o apoio ao mercado aumentará. Por outro lado, caso os serviços piorem como nos transportes públicos de ônibus, o apoio ao capitalismo tenderá a diminuir e aumentará a fatia de brasileiros que deseja mais estado.




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